Em 2016, foi divulgado um levantamento realizado pelo banco suíço UBS, no qual foram avaliadas 71 cidades e a carga horária de trabalho em cada uma. Segundo os dados, Hong Kong foi a primeira, com 50,1 horas trabalhadas por semana, na frente de Mumbai (43,7); Nova Déli (42,6) e Bangcoc (42,1). No Brasil, Rio de Janeiro contabilizou 33,5 horas e São Paulo 34,9.

Esses números nos ajudam a compreender porque os ambientes corporativos costumam ser apontados como um dos principais responsáveis pelos quadros de estresse e prejuízos à saúde. No ambiente de trabalho, são cerca de 40% de pessoas que retratam níveis patológicos de estresse, de acordo com o Instituto Qualidade de Vida.

O que poucas pessoas percebem é que os ambientes frequentados pela pessoa impactam diretamente na produtividade e na qualidade de vida dela, bem como no sucesso de qualquer negócio. O que é extremamente compreensível porque atrás de cada estação de trabalho existe um ser humano. A neuroarquitetura atua justamente nesse ponto, ou seja, qual o impacto de um ambiente no cérebro das pessoas, consequentemente nas emoções e comportamento delas? Hoje, a partir de pesquisas que estão sendo feitas conseguimos entender melhor esse impacto.

Para auxiliar a nova geração de arquitetos e aqueles profissionais que já estão há muitos anos no mercado, trabalhando com o modelo tradicional de arquitetura, fui em busca de novos estudos na Alemanha e hoje sou especialista internacional em projetos para ambientes de trabalho. Como responsável pelas empresas Bencke Arquitetura e Qualidade Corporativa, procuro disseminar essa nova forma de pensar e aplicar a arquitetura nos ambientes de trabalho em nossos cursos e palestras. Nestes eventos, apresentamos estudos que comprovam a eficácia de um projeto bem pensado levando em consideração o ser humano e como cada detalhe de um ambiente influencia no desempenho dele dentro do espaço de trabalho.

Mas destaco aqui alguns pontos importantes para aquela empresa que quer criar um ambiente ou uma estrutura física com espaços mais colaborativos. O primeiro deles é que o espaço físico precisa refletir com coerência o propósito dessa empresa. O Google, por exemplo, de uma forma muito inteligente e estratégica, cria ambientes que refletem totalmente a cultura da empresa.

No entanto, esse modelo do Google não funcionaria para o perfil de uma empresa que é mais tradicional. Neste caso, o ideal é criar um ambiente que represente a cultura da empresa para, de fato, ter um engajamento sincero dos profissionais com as áreas projetadas. O segundo ponto diz respeito à composição dos espaços. Não adianta querer que os profissionais sejam mais colaborativos, se não forem criados ambientes que favoreçam essas trocas e essa interação entre as pessoas.

O terceiro ponto é em relação à saúde e segurança dessas pessoas. Se um colaborador precisa circular mais dentro do escritório para conversar e interagir com outras pessoas, consequentemente vai ser mais saudável porque vai estar em constante movimento. Isso evitaria até mesmo prejuízos à saúde no caso de quem fica muito tempo sentado.

Além disso, precisamos levar em consideração a legislação trabalhista brasileira, que mesmo com a reforma, tem uma série de normas para serem seguidas e entre elas entra a questão de ergonomia. Estas que garantem saúde e também cumprimento à legislação de segurança no trabalho. O que isso quer dizer? É simples, que não é adequado, por exemplo, um colaborador ficar o dia inteiro sentado e trabalhando num puff com os demais colegas. Precisa existir uma mesa e uma cadeira, por mais que haja novos tipos de espaços de colaboração e interação.

Por fim, o quarto ponto eu diria que é sobre a presença dos recursos naturais dentro dos ambientes. Existem empresas que já comprovam o impacto positivo de elementos naturais, como vegetação, revestimentos similares à madeira ou pedra, no cérebro das pessoas e no comportamento delas. Uma pesquisa da Human Spaces demonstrou que quando as pessoas estão trabalhando com a presença de elementos naturais têm um aumento de 15% na criatividade.

Portanto, estratégias para projetar um ambiente pensado para o ser humano e com recursos tão simples valem muito a pena. Já pode ser considerada uma estratégia inteligente de mercado porque oferece um retorno significativo por envolver valores humanos. O diferencial de uma empresa, na atualidade, está sem ser mais humana e menos ‘máquina’.

Priscilla Bencke, da Bencke Arquitetura e Construções e da Qualidade Corporativa, é especialista em Projetos para Ambientes de Trabalho (Gepr. ArbeitsplatzExpertin/ Gepr. BüroEinrichterin) e consultora internacional de Qualidade em Escritórios (Quality Office Consultant). Priscila é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pós-graduada em Arquitetura de Interiores pela UniRitter Laureate International Universities.

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